Uma letra pode mudar a forma como se escreve uma cidade sem mudar o lugar a que se refere. É o que acontece com Thomar, grafia histórica que ajuda a reconhecer a idade de certas designações e a diversidade da escrita portuguesa ao longo dos séculos.
O antigo nome do Club Thomarense, identificado no inventário municipal do património arquitetónico, é um exemplo dessa memória. Para explicar a presença do «h», porém, é necessário recuar bastante mais do que ao tempo das coletividades e dos jornais locais.
O «th» já aparecia na escrita medieval
No estudo Notas de arqueologia, epigrafia e toponímia - VII, publicado em 2015, o arqueólogo Jorge de Alarcão assinala a presença de Thomar em documentos medievais. O autor observa que o grupo «th» podia ser usado sem justificação etimológica e sem valor fonético.
Essa observação é importante: a letra não permite concluir que o nome era pronunciado de outra maneira. Também não basta para demonstrar uma origem grega. A grafia de um documento e a origem de uma palavra são questões diferentes.
A simplificação que enquadra o desaparecimento do «h»
O Formulário Ortográfico de 1911 estabeleceu a eliminação do «h» no interior das palavras, com as exceções previstas, e referiu expressamente os grupos «rh» e «th». É neste quadro de normalização que se compreende a passagem de Thomar a Tomar.

A alteração pertence à reforma portuguesa do início do século XX. Não resulta do Acordo Ortográfico de 1990. Ao ler um documento antigo, a grafia deve ser entendida no seu contexto, em vez de ser corrigida mentalmente como se fosse um erro atual.
A origem do nome é outra pergunta
O desaparecimento da letra não encerra a discussão sobre a origem do topónimo. A síntese do Ciberdúvidas, assinada por Carlos Rocha, reúne propostas relacionadas com o tomilho, com um nome pessoal e com um antigo nome de rio.
Alarcão explora esta última possibilidade e propõe uma ligação a Tamaris. Trata-se de uma hipótese de investigação, não de uma conclusão que permita atribuir um significado definitivo ao nome da cidade.

Uma pista para voltar a olhar para a cidade
Para quem vive em Tomar ou a visita, a diferença entre as duas grafias é um ponto de partida para observar designações antigas, consultar documentos e comparar fontes. Uma inscrição pode conservar uma forma de escrever que já não corresponde à norma atual, continuando a fazer parte da memória local.
A leitura mais segura distingue o que está documentado do que permanece em discussão: o uso histórico de «th», as regras da reforma de 1911 e as várias propostas para explicar o nome Tomar.
Fontes consultadas
- Jorge de Alarcão, Revista Portuguesa de Arqueologia, 18, 2015, pp. 152-153 (PDF)
- Portal da Língua Portuguesa: Formulário Ortográfico de 1911, cláusulas III e VI
- Ciberdúvidas: A origem do nome da cidade de Tomar, Carlos Rocha, 2017
- Inventário municipal do património arquitetónico, entrada 320: Club Thomarense (PDF)
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