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Quercus alerta: centros de dados de Abrantes poderão consumir 19 vezes mais eletricidade do que o concelho

Quercus alerta: centros de dados de Abrantes poderão consumir 19 vezes mais eletricidade do que o concelho. Associação ambientalista exige avaliação conjunta dos dois projetos e alerta para a pressão sobre os recursos hídricos do Tejo

Os dois centros de dados previstos para o concelho de Abrantes poderão, se funcionarem à capacidade máxima anunciada, atingir um consumo elétrico anual equivalente a quase 19 vezes o atual consumo de todo o concelho. O alerta é da Quercus, que exige a realização de estudos de impacte ambiental antes do licenciamento dos empreendimentos.

A associação ambientalista manifesta particular preocupação com o segundo megacentro de dados projetado para o concelho, promovido pelo grupo Hyperion junto à rotunda de Alvega. O Pedido de Informação Prévia (PIP) apresentado pelo promotor recebeu parecer favorável, por unanimidade, da Câmara Municipal de Abrantes.

Segundo os dados divulgados pela Quercus, o empreendimento deverá ocupar cerca de 151 mil metros quadrados de implantação e totalizar 287 mil metros quadrados de área de construção. Está ainda prevista uma ligação elétrica de 200 MVA ao futuro posto de corte do Pego.

O projeto recebeu a classificação de Projeto de Interesse Nacional (PIN), estatuto que permite acelerar a respetiva tramitação administrativa.

Para a Quercus, a dimensão do empreendimento é “excessiva para o território que pretende ocupar” e poderá provocar impactes ambientais, hídricos e territoriais significativos. A associação defende, por isso, que a realização de um Estudo de Impacte Ambiental seja uma condição prévia a qualquer eventual licenciamento.

Quercus alerta: centros de dados de Abrantes poderão consumir 19 vezes mais eletricidade do que o concelho
Imagem ilustrativa

Dois projetos dependentes da ligação elétrica do Pego

O concelho de Abrantes tem já em curso outro centro de dados de grandes dimensões, promovido pela EDC ONE nos terrenos da antiga Central Termoelétrica do Pego.

O projeto foi aprovado em setembro de 2025, ao abrigo da classificação de Projeto de Interesse Municipal, tendo beneficiado de isenções fiscais no valor de 16,2 milhões de euros. A instalação de dois empreendimentos desta dimensão no mesmo concelho, ambos dependentes da ligação à rede elétrica através da Central do Pego, faz aumentar as preocupações da Quercus quanto aos efeitos acumulados sobre o território.

Entre os principais riscos apontados encontram-se o consumo e eventual contaminação dos recursos naturais, a pressão sobre os solos agrícolas e florestais, a alteração da paisagem, a poluição sonora e a criação de ilhas de calor.  A associação considera que estes impactes ainda não estão a ser avaliados de forma integrada.

Consumo poderá atingir 2,8 TWh por ano

De acordo com os cálculos apresentados pela Quercus, os valores de potência considerados para os dois centros de dados — 20 MW no projeto de Alvega e 300 MW no EDC ONE Pego — não significam que as infraestruturas funcionem permanentemente no máximo da sua capacidade. Ainda assim, num cenário considerado conservador, com uma utilização média de apenas 30% da potência instalada, o consumo conjunto poderá rondar os 841 GWh por ano.

Este valor corresponde a cerca de 5,7 vezes o consumo anual de eletricidade registado no concelho de Abrantes em 2024, que terá sido de 148,8 GWh. Se os dois centros de dados funcionarem à plena capacidade, o consumo poderá aproximar-se dos 2,8 TWh anuais, quase 19 vezes mais do que o atual consumo elétrico de todo o concelho.

Escassez de água no Tejo agrava preocupações

Além do consumo energético, a Quercus alerta para a utilização intensiva de água normalmente associada ao funcionamento dos centros de dados, designadamente nos sistemas de refrigeração. A preocupação surge num momento em que o diagnóstico da Agência Portuguesa do Ambiente para a Região Hidrográfica do Tejo e Ribeiras do Oeste, relativo ao ciclo de planeamento de 2028 a 2033, aponta para um índice de escassez hídrica de 40% no rio Tejo. A associação refere ainda que cerca de 60% das massas de água superficiais e 40% das massas de água subterrâneas permanecem abaixo da classificação de “Bom estado”.

Quercus alerta: centros de dados de Abrantes poderão consumir 19 vezes mais eletricidade do que o concelho
Rio Tejo – Abrantes

Neste contexto, a Quercus exige uma análise independente e publicamente acessível sobre os efeitos dos projetos no rio Tejo. O estudo deverá considerar períodos de seca severa e ondas de calor, assim como avaliar os efeitos do aumento da temperatura local na qualidade da água destinada ao consumo humano e nos ecossistemas fluviais e ribeirinhos.

Quercus pede participação das populações

A associação ambientalista considera que o Plano Nacional de Centros de Dados apresenta uma visão “demasiado otimista” sobre o crescimento desta indústria e não acautela devidamente os riscos energéticos, ambientais e territoriais. Entre as medidas defendidas está a realização de um Estudo de Impacte Ambiental específico para o projeto da Hyperion e de uma avaliação cumulativa dos dois centros de dados previstos para Abrantes.

A Quercus pretende igualmente que a Agência Portuguesa do Ambiente e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo não emitam parecer favorável enquanto não estiverem esclarecidas todas as condicionantes identificadas.

É também pedida a reavaliação da dimensão territorial da Zona Livre Tecnológica de Abrantes, bem como a abertura de períodos mais alargados de consulta pública e a realização de sessões presenciais de esclarecimento em Alvega e na Concavada.

A associação reclama, por último, a criação de mecanismos que obriguem os promotores a assegurar benefícios concretos para as comunidades locais antes do licenciamento e da instalação dos empreendimentos.

 

 

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