Numa visita aos Cuidados Continuados da Misericórdia de Tomar, reparei num senhor de cadeira de rodas, que se encontrava junto a uma mesa com uma caixa de lápis e uma folha com um desenho, a que dava vida, colorindo cada pormenor com tanta perfeição…

Quando eu for velhinha quero passar o resto dos meus dias a pintar como o Sr. Manuel Queixo. A colorir de cores os momentos menos bons que carrego na memória e os sonhos que ainda moram em mim.
Cruzei-me com o Sr. Manuel Queixo por mero acaso ou talvez não, porque há quem diga, que nada acontece por acaso. Teias que o destino tece no puzzle da nossa vida, encontros inimagináveis de vidas tão distantes no universo de cada um.
Numa visita aos Cuidados Continuados da Misericórdia de Tomar, reparei num senhor de cadeira de rodas, que se encontrava junto a uma mesa com uma caixa de lápis e uma folha com um desenho, a que dava vida, colorindo cada pormenor com tanta perfeição…
Olhei e logo me perdi nas cores, neste momento invulgar, único… num sítio onde ninguém gosta de estar.
O Senhor Manuel é um dos utentes destes serviços da Misericórdia de Tomar, devido a um problema de saúde perdeu mobilidade nas pernas e tem dificuldade em movimentar os braços, mas desde que aqui chegou tem vindo a recuperar. Talvez «beba» nas cores dos seus desenhos a força que faz mover, as suas mãos e depois os seus braços de forma ritmada de traços perfeitos com que enche de luz um simples desenho numa folha de papel.
Saí dali, mas levei comigo a imagem do Sr. Manuel, que passa agora os seus dias a pintar. Uma forma extraordinária de encher de cor os dias monótonos de quem tem que viver um longo período de convalescença.
Quis voltar, queria saber mais sobre este homem, recordava-o como uma criança de sorriso cheio, que passa os seus dias a pintar compulsivamente.
Afavelmente, a Misericórdia de Tomar acedeu ao meu pedido, e voltei para me sentar ao lado do Sr. Manuel e com ele partilhar a sua história.
Uma história igual a tantas ou tras, nasceu em Lisboa, mas com seis meses a família foi viver para Alcanhões (concelho de Santarém), terra que considera ser a sua. Tem 79 anos, na juventude embarcou para a dura experiência da guerra no Ultramar, esteve na Guiné, de onde regressou de avião, aliás a única vez na vida que viajou de avião. Nunca se casou, apesar ter vivido ainda um namorico que não deu certo, trabalhou toda a sua vida na construção civil e no campo.
Nunca, durante a sua vida, experimentou espalhar cor pelas formas de um desenho. Foi ali, nos Cuidados Continuados que lhe deram uma
folha com um desenho (no âmbito das terapias ocupacionais), e pela primeira vez manifestou um talento que desconhecia. É inacreditável, com a sua idade e dificuldade de locomoção, ter tanta precisão nos traços.
O gosto pela pintura, a escolha das cores e a perfeição com que usa o lápis, dentro dos contornos do desenho, descobriu-o ali, aos 79 anos… Numa idade em que julgamos já saber tudo sobre nós. E não sabemos, é como se houvesse labirintos desconhecidos que nos percorrem por dentro, e que ainda estão por descobrir.
O Sr. Manuel está feliz quando pinta. Sente-se na forma como nos mostra os desenhos, um a um… como uma verdadeira obra de arte (para mim é arte), refletida na harmonia das cores que de forma autónoma escolhe.
Gostei de conhecer o Sr. Manuel, porque me deu a maior lição de vida, na maior adversidade, como é estar confinado a uma cadeira de rodas e num local, onde muitas vezes paira a dor física e mental, podemos descobrir, no mais profundo recanto do nosso ser, uma forma de encontrar um sentido para a vida! E esta é uma das formas mais belas, pintar!
Quando for velhinha quero passar o resto dos meus dias a pintar como o Sr. Manuel!

Nota: Agradeço à Santa Casa da Misericórdia de Tomar, na pessoa do seu Provedor e Diretora Técnica, a possibilidade de partilhar um momento de «felicidade», porque o foi para mim, e acredito que também o foi para o Sr. Manuel. É nas pequenas coisas da vida que a grandeza da alma se manifesta, neste caso, a do Sr. Manuel. Obrigada!
Isabel Miliciano
Artigo publicado na edição impressa do Jornal O Templário de 07-05-2026



